Muitas plantas são potencialmente perigosas a nossa saúde. Elas podem provocar danos se ingeridas ou pelo simples contato com a pele. E não é raro tais plantas serem cultivadas dentro das residências, em vasos ou jardins (figura 1), como plantas ornamentais (Silva, P. H. Da et al., 2015).

Figura 1 Cica em jardim de residência como planta ornamental.
O envenenamento de animais por plantas é uma ocorrência relativamente comum em todo o mundo. Nos países europeus a grande maioria das intoxicações por plantas em animais de estimação é resultado da ingestão de plantas domésticas ou de jardim, como palmeira sagu (Cycas revoluta), mamona (Ricinus communis), diversas espécies de alhos (Allium spp.), poinsétia (Euphorbia pulcherrima), lírios (Lilium spp.), lírio do vale (Convallaria majalis), espinheiro-de-fogo ()Pyracantha spp., rododendros e azaléias. (Rhododendron spp), árvore de cinamomo (Melia azedarach), teixo europeu (Taxus baccata) e loendro (Nerium oleander) (Cortinovis, C.; Caloni, F., 2013).
Destas plantas que causam intoxicação em países europeus podemos destacar em nosso território a palmeira sagu, pertencente a familia das cicadáceas. As cicadáceas são gimnospermas, ou seja são plantas terrestre que possuem semente mas não apresentam frutos (figura 2). São antigas, sendo consideradas uma forma intermediária na evolução das plantas, de samambaias a plantas com flores. Estudos fósseis indicam que as cicadáceas estavam amplamente distribuídas por todo o mundo no início do período Mesozóico, ou seja, há cerca de 200 milhões de anos. As cicadáceas que podem ser encontradas hoje estão essencialmente limitadas às zonas tropicais e subtropicais ao redor do globo (Laquer, G. L.; Spatz, M., 1968).
As palmeiras sagu podem ser encontradas como plantas nativas ou ornamentais (figura 3 e 4). Embora todas as partes da planta possam ser tóxicas, as sementes e raízes parecem conter as maiores concentrações de toxinas. A toxicose por cicadáceas foi descrita em diferentes espécies, incluindo ovelhas, gado, cavalos, porcos e cães, bem como em humanos.(Maeso, C. et al.., 2020).

Figura 2 Sementes da planta Cyca revoluta. Pertencente ao grupo das Gimnospermas ela possui semente mas não apresenta fruto.
No Rio Grande do Sul setenta casos de intoxicação por Cycas revoluta foram registrados pelo Centro de Informação Toxicológica num período de dez anos. Todos os pacientes moravam na zona urbana, sendo a própria residência o local mais frequente do acidente. O maior número de acidentes ocorreu na faixa etária entre 0 e 2 anos (Silva, M. M. D. S. , 2023).
Grande parte das intoxicações por plantas envolve filhotes, pela curiosidade e por estarem sempre procurando algo para pôr na boca. Tédio e mudanças em geral aos quais são submetidos, levam a procurar plantas para se distrair e também por apresentarem o hábito de morder devido à troca da dentição. Apesar de ser menos frequente, animais adultos também podem ingerir tais plantas (Santos, D. R. G. Dos; Farias, E. T. N.; Leite, A. G. B., 2022).
A maioria dos cães (95%) que ingeriram Cycas revoluta desenvolveram problemas no fígado e trato gastrointestinal, como vômito (com ou sem sangue), diarréia ( com ou sem sangue), sinais de dor abdominal, lesões hepáticas, ou alterações nas concentrações de enzimas hepáticas no sangue. Além disso podem apresentar um ou mais sinais neurológicos como depressão, fraqueza, cambaleio, coma e convulsões (Albretsen, J. C.; Khan, S. A.; Richardson, J. A., 1988b).

Figura 3 Todas as partes da planta conhecida como Palmeira Sagu (cica) são tóxicas.
Nos casos de toxicose por Cyca sp., o fígado é o principal órgão acometido em cães. Se o animal sobreviver à fase aguda da doença lesões crônicas podem se desenvolver após 53 dias da ingestão da planta. Essas lesões no fígado tendem a ser difusas e extensas, e o óbito pode ocorrer de 8 a 12 semanas após a exposição. Em um estudo com 14 cães, 2 apresentaram cronicamente sequelas da ingestão de C. revoluta, sendo que em um deles o óbito ocorreu anos após o quadro de hepatopatia aguda pela ingestão da planta devido a colangio-hepatite crônica (Pereira, V.C., Slaviero, M., Saccaro, R.O., et al. 2020).
Observa-se que apesar da terapia de suporte a taxa de mortalidade relatada na literatura esta entre 30 e 50%, no entanto observamos que, segundo Gaspari (2013) em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, dos três pacientes tratados, todos foram a óbito, na Vira-Lata dos três pacientes com diagnóstico confirmado apenas um sobreviveu. O que pode indicar uma taxa de letaldidade maior que o indicado na literatura.
Destaca-se portanto a necessidade da inclusão da intoxicação por Cycas como um dos diagnósticos diferenciais para cães com sinais de vômito agudo, insuficiência hepática crônica e anemia progressiva, incluindo assim na investigação a possibilidade de ingestão de qualquer parte da planta especialmente em pacientes jovens (Gaspari, 2013).

Figura 4 Pode-se observar cicadáceas em diversos parques e áreas públicas, além de jardins como plantas ornamentais
Propagar o máximo possível e através de todos os meios de comunicação, as espécies de plantas tóxicas mais comuns é a forma mais eficaz de diminuir o risco de intoxicação por plantas. É indispensável conhecer os vegetais perigosos da região, da residência e do quintal, conhecê-las pelo aspecto e pelo nome, assim conseguimos proteger nossos animais de estimação (Silva, P. H. Da et al., 2015).
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
ALBRETSEN, J. C.; KHAN, S. A.; RICHARDSON, J. A. Cycad palm toxicosis in dogs: 60 cases (1987-1997). Journal of the American Veterinary Medical Association, v. 213, n. 1, p. 99–101, 1 jul. 1998b.
CORTINOVIS, C.; CALONI, F. Epidemiology of intoxication of domestic animals by plants in Europe. The Veterinary Journal, v. 197, n. 2, p. 163–168, ago. 2013.
GASPARI, R. Intoxicação por Cycas Revoluta como causa de hepatopatia crônica em cães. Monografia – Programa De Residência Profissional Em Área Da Saúde – Medicina Veterinária : Universidade Federal de Santa Maria, 2013. Disponível em: <https://https://repositorio.ufsm.br/bitstream/handle/1/154/Gaspari_Renata_de.pdf?sequence=1&isAllowed=y. Acesso em: 23 abr. 2025.
LAQUER, G. L.; SPATZ, M. Toxicology of Cycasin. Cancer Research, v. 28, n. 11, p. 2262–2267, nov. 1968.
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PEREIRA, V.C., SLAVIERO, M., SACCARO, R.O., et al. Cirrose hepática associada à ingestão de Cycas revoluta em canino. Acta Scientiae Veterinariae. 48(Suppl 1): 560, 2020.
SANTOS, D. R. G. DOS; FARIAS, E. T. N.; LEITE, A. G. B. Intoxicação por Cycas revoluta Thunb em cão: Relato de caso. Pubvet, v. 16, n. 4, p. 1–5, abr. 2022.
SILVA, M. M. D. S. Aspectos Epidemiológicos E Clínicos Dos Acidentes Com Cycas Revoluta Em Cães Registrados Pelo Centro De Informação Toxicológica (Cit-Rs) Entre 2012-2022. Trabalho de Conclusão de Curso – Curso de Medicina Veterinária : Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2023. Disponível em: <https://lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/280318/001196669.pdf?sequence=1&isAllowed=y>. Acesso em: 21 abr. 2025.
SILVA, P. H. DA et al. Entre a beleza e o perigo: uma abordagem sobre as plantas tóxicas ornamentais. Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 8, n. 1, 7 jun. 2015.